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Poesias de Luziana Navarro

MANIA SADIA


Socorrida sou pela poesia
Sempre assim todo dia
É quando sou repleta de alegria
Mas também de melancolia
E sou contemplada pela alforria
Uma necessidade que me irradia
Erradica a monotonia
Dizima o tédio e a apatia
Sem poema minha maré é vazia
Se não realizo versos a vida se esvazia
Sou mar sem calmaria
Toda tarde arde vadia
As rimas me atormentam noite e dia
Me invadem sem cerimônia, com ousadia
A fomentar essa mania
Me fazem plena parceria
Se não escrevo me perco na agonia
Dentro do transe sou tomada de valentia
Sou sua ao arquitetar a utopia
E você me arrebata logo ao raiar o dia
Até as dores me são companhia
A luz do dia me atavia
A noite até vira dia
Nenhuma disabor me avaria
No meu delírio eu lembrava de você e sorria
Enquanto eu escrevia
Lá no início da poesia
A tristeza não me invadia
O prazer me constituía
Em te amar minha vida consistia
Sequer frio fazia
Nosso elã plenitude a tudo trazia
A cada verso que nascia
Também a chuva caía
E tudo renascia
Você sempre rima com minha poesia
Até música faço com maestria
Sua presença me enfastia
Agora me despeço dessa folia
Fora da poesia sentirei asfixia
O desfecho se inicia
A saudade ganha primazia
Se você não me faz companhia
E some quando finda a poesia.

POSSE POSSÍVEL


Não posso
Passar a viver
Sem te ver
Não posso pensar
Em não pensar
Em me empossar em você
É lisonjeiro te ter inteiro
E meu passo até você é ligeiro
Algo passageiro para você
Não posso passar a ser
Não pense que posso
Pois não é possível ser
Eu não posso passar
Sem empoçar ao redor de você
De você não me encharcar
E em você não passear de prazer
Essa possibilidade
Não pode ser
Eu posso secar
Se eu passar sem você
Dissecar todo meu ser
Se nos aprazer
Há prazer
Por isso pode ser
Que eu possa passiva ser
Ser seu amanhancer
E sua, nua, ao anoitecer
A seu bel-prazer
Até desfalecer
É o que posso fazer
Se toda você me lê
Eu sou um poço de desejos
Passe seu passe
Passo o troco para você
Passo a vida querendo você
Passando necessidade
Penando a valer
Eu passo sem nada
Eu só não posso
Não possuir você
E passiva padecer
Posso ser tudo o que eu quiser ser
E posso, mesmo assim,
Perecer se não puder você ter
Eu posso ser posse sua
Mesmo sem você nunca me ter
Passível de acontecer
Você pode me possuir
Como jamais eu mesma ousei fazer
Você pode até me abduzir
E me ver possessa de prazer
Só sei que não sei mais o que fazer
Sequer o que dizer
Posso até posar nua, na rua, para você
Só não posso te perder.

SADÔ MASÔ


Poeta é sofredor
Por essência
Não pode se dar ao luxo
De ter pudor
Pois se alimenta da dor
Assim fomenta seu ardor
A produzir escritas em frescor
Usando lápis de cor
Para disfarçar todo amor
Que o assola sem temor
De o desfalecer
Num tremor.

INCOERÊNCIA COERENTE

É coerente não ser coerente sempre. Essa afirmativa é teoricamente incoerente. Contradiz o conceito de coerência, conceitualmente. É dialética, essa afirmação.  E nessa condição, de dialética ser, tal assertiva é passível de constante análise  crítica questionadora. Dúbia, na vivência prática. O ser inteligente; portanto, questionador e auto crítico; em busca de nexo nas interconexões entre suas idéias, está em constante reformulação de seus conceitos  e atitudes, com afinco, no escopo de alcançar harmonia entre seus pensamentos e sentimentos. Tendo em vista ser utópico esse propósito, na busca da coerência plena, jamais a  atingimos plenamente, completamente. A cada malogro, a nosso ver analítico; voltamos a reformular a teia de sinapses e insights, tecendo periclitante trama, ora frágil, ora forte.  A intempérie advém de idiossincrasias pessoais e, assim, o indivíduo está sempre a reformular seus postulados. Tais plasticidade e maleabilidade sofrem influência direta das mudanças de  posicionamento ético e intelectual, além das pressões culturais advindas do meio:  acontecimentos sociais que afetam a humanidade de modo prático e comportamental. Tais  mutações constantes  afetam os indivíduos diretamente, a todo instante. Os acontecimentos globais são desordenados, caóticos e incoerentes.

Configura-se, portanto uma permeabilidade entre os universos, ambos incoerentes, interno e externo; à qual o indivíduo não consegue refratário ser. Tal demanda diária exige que o indivíduo reformule  seu posicionamento e seu discurso,  a cada instante, na fugidia e ilusória  intenção da coerência dentro de si, e na maneira como ele se relaciona com o mundo exterior. Esse afã é constante e inatingível. Tal qual o mundo, o ser está sempre em transformação, sempre mutante, em permanente e incessante construção. Assim, a única constância que há, é a instabilidade de tudo: a não constância. Tal efemeridade, torna impossível a plena coerência, todo o tempo, em tudo. Apenas enquanto conceito teórico. É por meio do confronto de ideias, da incorencia entre elas (dentro do mesmo indivíduo, e interpessoalmente), que se dá a evolução do pensamento humano. Portanto, dialeticamente, a incoerência é necessária e útil; uma constante oscilação que impulsiona a razão, em busca do aprimoramento dessa. É impossível sermos coerentes sempre, por sempre estarmos nos reformulando. Todas as verdades universais têm seu gênesis a partir de teorias formadas e reformadas, e continuam a ser retificadas, e assim ratificadas são. É o confronto entre conceitos que permite suas reformulações. As verdades são mutantes e relativas. As coerências são voláteis e são as incoerências ente elas  que permitem o aprimoramento do pensamento da humanidade. Essa própria evolução é conceito questionável, sazonal, circunstancial e variável de acordo com a cultura e conveniência épica. Essa inevitável dinâmica de ideias, e comportamental, confere riqueza aos debates filosóficos, sociológicos, políticos, econômicos e de toda ordem. É na observância crítica e analítica do meu semelhante e de culturas vizinhas ou intercontinentais que meço, avalio e reavalio meus referenciais de valor. Assim são adotados novos padrões e parâmetros a todo instante. Nesse movimento constante, um postulado que já foi pétreo  considerado; pode derrubado ser;  a fim de ser READOTADO outro que outrora já  FOI DESCARTADO. Essa dialética é a única constante. Nenhuma  idiossincrasia é perene. Assim, tem sido em toda a história da civilização e na história do pensamento do homem.  Tal qual de crisálida à  borboleta. “Só os parvos não mudam”. Assim, disse o ilustre  brasileiro baiano que brilhou em Haia.

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