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“É a doença que mais mata e nós tivemos mortes que poderiam ser evitadas”, diz pesquisadora da Fiocruz

Margareth Dalcolmo - Foto: Divulgação

29 de junho 2020

Desde o início da pandemia, a pneumologista e professora-pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca da Fundação Oswaldo Cruz (Ensp/Fiocruz) Margareth Dalcolmo tem sido uma das vozes mais importantes no alerta e combate à doença causada pelo novo coronavírus.

Desde o início da pandemia, a pneumologista e professora-pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca da Fundação Oswaldo Cruz (Ensp/Fiocruz) Margareth Dalcolmo tem sido uma das vozes mais importantes no alerta e combate à doença causada pelo novo coronavírus.

Ainda era março quando ela previu, por exemplo, que a Covid-19 seria rejuvenescida no Brasil, por conta das condições socioeconômicas e geográficas do país. Sob o marco de 50 mil mortes e um milhão de pessoas infectadas, Dalcolmo, nesta entrevista, aponta que muitas vidas poderiam ter sido salvas no país se houvesse uma organização harmônica entre os poderes e se o lockdown tivesse sido feito no momento certo. Ela anuncia ainda que estamos na fase de interiorização da doença e que é impensável o retorno às aulas.

No fim de semana, chegamos ao marco de 50 mil mortes e um milhão de pessoas infectadas no Brasil. O que isso simboliza? Esse número era evitável?

É importante deixar claro que números não são cabalísticos. É pouco, é muito? Mil seria muito. São vidas. Nós estamos num momento importante da epidemia no Brasil, quase com três meses e meio de evolução, considerado que os primeiros casos detectados foram após o carnaval. Nós estamos pagando o preço de uma epidemia que não teve aquilo que os países que nos antecederam tiveram, que foi uma organização harmônica de todos os poderes controlando a epidemia.

No Brasil estamos pagando um preço caro por isso, com muitas mortes evitáveis. Nós poderíamos ter tido muito menos mortes, a despeito do tamanho da nossa população e da força com a qual a epidemia se disseminou no Brasil. Em algumas áreas de cidade, como Rio de Janeiro, algumas áreas de São Paulo, Manaus e Fortaleza, a epidemia chegou e bateu de forma muito violenta, matando muita gente num período muito curto de tempo

Naquele momento já se podia prever o que está acontecendo agora?

À época eu fiz parte do grupo de médicos que assessorou o Ministério de Saúde e, naquele momento inicial, no começo de março, nós dissemos que era preciso ter uma coordenação bastante organizada entre o governo federal, os estados e prefeituras. Porque era óbvio que a epidemia iria eclodir de maneira bastante severa e se disseminar para as camadas menos favorecidas.

E foi o que realmente ocorreu. Nós vemos uma epidemia relativamente bem controlada nas classes mais favorecidas e muito delicada nas classes menos favorecidas. Hoje a epidemia se disseminou como nós previmos três meses atrás. No dia 15 de março, dei uma entrevista em que falei que a epidemia iria se disseminar para áreas pobres e se rejuvenescer no Brasil. Aconteceram as duas coisas e eu não tenho mérito nenhum nisso. Para tal análise, bastava apenas conhecer o que é o Brasil, a composição demográfica, a distribuição social, a desigualdade social… Tudo isso era fácil de saber que iria acontecer assim.

O que nós esperávamos é que conseguíssemos, com medidas de contenção efetivas, ter uma adesão maior da população às medidas de distanciamento social, que nunca houve. Nós nunca alcançamos os chamados 65%, 70% de distanciamento social em nenhum momento no Brasil. Nem São Paulo, que alcançou as taxas melhores, chegou a esses números, ditos ideais.

Como podemos ver a epidemia hoje?

Eu vejo de maneira muito preocupada. Temos muitas realidades no país. Conseguimos que muita gente se contaminasse e, portanto, aumentamos o número de imunizados, de pessoas que hoje respondem de maneira positiva aos testes sorológicos, apresentando um grau de defesa imunológica. Com isso, diminuímos o número de pessoas suscetíveis da população brasileira em algumas áreas. Isso é verdade, a partir de estudos sorológicos feitos dentro de algumas comunidades.

O estudo coordenado pela Universidade de Pelotas e Ministério da Saúde mostra três fenômenos: o primeiro da disseminação grande do vírus, revelando uma mudança muito grande de percentual de pessoas que testam positivo na sorologia, com aumento de acima de 50%. O segundo é que a taxa de imunizados em determinadas comunidades também é muito alta, como estamos vendo no Rio, na Rocinha, por exemplo, com quase 20%. E, portanto, com isso, o terceiro é a diminuição do número de pessoas suscetíveis.

Isso nos leva a pensar se esse seria o momento de ter uma imunidade dita comunitária ou aquele termo que vem da vacinologia, a imunidade de rebanho. Talvez não necessitemos de uma imunidade comunitária tão alta como a que seria conferida pela vacina. Talvez com 40% pudéssemos controlar a epidemia no Brasil. É possível. Isso os estudos vão mostrar. E esse tempo passado vai mostrar também. Eu vejo a epidemia hoje revelando as desigualdades. Em alguns lugares ela está mais controlada, como estados como Santa Catarina e Paraná. Em outros estamos observando o aumento de casos.

Fonte: DCM